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Viver as contradições

originalmente para Ediciones Inestables - Orgullosamente Gordas, 2017

            Eu sou uma bailarina gorda. Desde os seis anos de idade me reconheço como bailarina e habito o universo da dança com meu corpo gordo. Comecei frequentando aulas de jazz e de balé clássico, que eram as informações que eu tinha disponível no meu bairro, na zona leste da capital em São Paulo. Fui aprendendo a dançar tais técnicas ao mesmo tempo que aprendia que meu corpo não podia dançar aquilo. Vivi desde muito cedo esta contradição: eu sabia me mover como uma bailarina, mas o meu corpo era errado, inadequado para a dança.

            A dança me foi ensinada como um ideal a ser alcançado, um ideal que não dizia respeito apenas ao modo de mover mas também sobre minha aparência. Aprendi sobre a leveza, sobre a beleza e sobre alcançar um padrão determinado e imposto. Eu treinei a dança dos magros, a dança das leves e belas bailarinas que devem parecer flutuar. Mesmo sendo gorda aprendi a ser leve, a transparecer leveza no modo meu mover, mas não era suficiente. Eu deveria ser magra.

            A dança associada a um ideal de leveza e de beleza se estende do balé clássico para outros contextos. A teórica da dança Marie Bardet[1] explica que na filosofia ocidental, poucos autores trataram da dança e dentre esses poucos muitos reforçam o imaginário da bailarina como uma figura bela e leve. Tal imagética incide não apenas no senso comum, mas também em muitos modos de produção de dança os quais excluem corpos que, de alguma forma, se afastam desse ideal de beleza e leveza.

            Eu sempre habitei esses contextos, sempre vivenciei um paradoxo de pertencimento e não pertencimento ao lugar da dança. Eu causo estranhamento e recebo olhares preconceituosos, ao mesmo tempo em que recebo elogios. Por muito tempo vivi esta contradição pensando que ela seria passageira. Isto porque, ao percorrer um ideal eu acreditava que um dia, talvez, eu pudesse moldar o meu corpo para obter o reconhecimento que eu já sentia. Pensei, muitas vezes, que um dia eu seria magra e poderia fazer o que já fazia.

             A contradição era intensa e diária. Recebi muitas dicas sobre como emagrecer e muitas alertas de que era necessário que eu emagrecesse para ser uma bailarina profissional. Afinal, era um desperdício do meu talento eu ser gorda. Eu continuava gorda e continuava dançando. No entanto, não era um ato de rebeldia, pelo menos não consciente. Eu dançava porque fazia sentido pra mim, nunca pensei em desistir. Ser gorda era, certas vezes, um incômodo, mas eu encontrava jeitos de persistir. Dançar é meu jeito de estar no mundo.

            Na meu curso de graduação[2] eu tive contato com dança contemporânea e conheci outros modos de articular o pensamento em dança. Entendi que além de pesquisar o modo de mover dos corpos, os criadores em dança contemporânea se interessavam por quebrar as noções padronizadas que ditam como a dança deve ser. É importante ressaltar que falo de um contexto muito amplo o qual abriga uma quantidade incontável de pesquisas. Não estou sendo ingênua, entendo que muitas vezes a quebra de um padrão ou de um ideal imposto pode vir apenas para lançar um novo ideal e gerar outras exclusões.

            No entanto, neste momento, conhecer esse outro ambiente foi importante pra mim. Através dos meus estudos em dança contemporânea passei a dançar minhas singularidades ao invés de seguir um modelo que está o tempo todo a minar corpos como o meu. Essa experiência mudou o modo como eu olhava para o meu corpo. Eu não mais dançava como se o meu corpo fosse outro, como se ele fosse magro, mas assumia meu formato e meu peso.

            Ao dançar através desse entendimento de corpo pude perceber as nuances entre minha força e vulnerabilidade. Contudo, a contradição ainda reside. O estranhamento com o meu corpo ainda acontece. A diferença é que eu não me interessava mais por alcançar um ideal de corpo. Passei a me interessar sobre quais outros contextos a dança pode criar, o que mais além de beleza e leveza cabe na dança?

            Tornei-me uma bailarina gorda profissional, e nessa trajetória fui fortalecendo o entendimento sobre o meu corpo. Minha pesquisa se encaminhou para o ponto em que não bastava apenas habitar diferentes contextos, mas evidenciar o meu contexto. Era preciso revelar o meu corpo, o meu peso, o meu formato. Era preciso falar sobre as contradições do meu corpo com a dança.

            Em 2016 iniciei o processo de criação do solo Peso Bruto que discute as questões de estranhamento em relação ao meu corpo. Desde então, tenho me orgulhado em chamar o meu corpo de gordo, pois entendo que este formato me define sem me limitar. Eu sempre fui uma bailarina gorda e sempre tive essa realidade como uma contradição. Afinal, não é apenas a dança que recusa os corpos gordos, mas a sociedade como um todo.

            O corpo gordo é, em geral, visto como um corpo errado, não desejado, que não consegue controlar sua voracidade e tem preguiça demais ou pouca força de vontade para se tornar o magro que todos devem ser. Este solo surgiu como uma urgência em discutir essas imposições e questionar o estranhamento com um formato de corpo que existe e que precisa não mais ser negado.

            Para além da aceitação, Peso Bruto articula modos de existência, resistência e empoderamento. Esta dança revela um lugar de fala e propõe outros modos de olhar para o corpo gordo. Este trabalho explora a materialidade do corpo nas tensões entre formato e o conteúdo, entre o controle e a brutalidade. A proposta não é apenas criar um contexto de dança que eu posso habitar, é friccionar a existência desse contexto. É, sobretudo, um jeito de explodir a contradição. Peso Bruto é dança de gorda.

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[1]BERNET, Marie. A filosofia da dança: um encontro entre dança e filosofia. Trad. Regina Schöpke, Mauro Baladi. São Paulo: Martis Fontes, 2014.

[2]Curso de Comunicação das Artes do Corpo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

certa vez me disse "eu coreografo o pensamento"

publicado originalmente em 7x7, 2015.

Wagner Schwartz X Jussara Belchior = Certa vez me disse “eu coreografo o pensamento”

Sobre Mal Secreto, de Wagner Schwartz

          Adentramos um pequeno espaço que precisa de paciência e generosidade para acomodar tanta demanda. Ele está lá, quieto. Tem um grande livro entre as mãos, uma pedra ao lado dos pés e sussurra uma canção. Não ouço muito bem, suponho que seja a criação homônima de Wally Salomão e Jards Macalé. Posso estar enganada, afinal, a confusão dos sentidos é sempre possível quando a palavra toma os espaços.

          Enfim, chegamos. Abre-se então o livro e a tela. A parede ao fundo torna-se espaço de uma viagem de reconhecimento. As imagens vibram com tal potência que revelam a condição friccional do espaço da cena. Evocam a presença das coisas. São pistas, elas nos dizem algo sobre nós mesmos enquanto reparamos em seus detalhes.

            Contudo, não falam sozinhas, a voz de Wagner nos conduz a esse desdobramento. Ele é calmo e certeiro.

            Precisamente, ele nos dá a ver as coisas em seus estados, como o avesso de um bordado primoroso o qual se confunde com o lado direito. Lado direito? Cá está a linguagem me pregando peças. Esquivo-me: o avesso e seu oposto. Mas não é o avesso o lado oposto? Essa linguagem não tem jeito! Danada.

            Mal Secreto é. Verbo e substantivo que dispensam artigos. Não há definição ou indefinição. Sua narrativa é descabida da ordenação do tempo. O tempo aqui não está na narrativa, está no corpo de quem compartilha a experiência.

            Tenho vontade de lembrar de tudo, todas as imagens, cada cor, objeto ou paisagem, mas isso, talvez, não importe tanto. Meu excesso é dispensável.

            Agora, não sei desde quando, ele pisa na pedra. Em algum momento percebo a diferença, isso sim é relevante.

            A colagem dessas memórias todas é simples, são objetos-coisas-vida-história-sendo-no-presente. Parece ironia, mas é simples sim. É abstração em concretude. Coreografia do pensamento.

            É sobre isso mesmo, sobre ser, este verbo tão cheio de vigor. Verbo do acontecimento singular.

            Transito, então, neste lugar onde o imaginário consolida a experiência. A experiência de estar e escutar, de apreender. Sou essa dança de memória, alusão e acontecimento. O pensamento é corpo que se manifesta entre lampejos, devaneios, dados e cultivo. O pensamento é dança da linguagem.

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aos meus inimigos

publicado originalmente em 7x7, 2013.

Grupo Cena 11 Cia de Dança X Jussara Belchior = Aos meus inimigos

Sobre Carta de amor ao inimigo, de Grupo Cena 11 Cia de Dança

            Queridos inimigos, vejam bem, estou chamando vocês de queridos, mas não é uma ironia. A nossa situação é contrária ao embate, nós estamos juntos e é a nossa relação que me permite viver essa experiência, por isso aprendi a ter carinho por vocês.

            Não vou nomear todos vocês, eu poderia me esquecer de alguém, dos inimigos mais esporádicos ou daqueles que talvez nunca mais voltem. Vocês sabem, a nossa relação é remota, eu não danço pra vocês, eu danço com vocês. Nós construímos essa transitoriedade, e construímos de novo a cada vez que dançamos juntos.

            A vocês que não forem citados não se sintam negados, eu realmente não preciso expor todos vocês, eu quero aproveitar essa carta pra falar sobre algumas coisas que são importantes pra mim nesse trabalho, por isso escolhi três de vocês.

            Minha inimiga certeza, não se sinta mal mas eu preciso esquecer que você existe. Quando você vem fica difícil enxergar o que está acontecendo. Parece que você não entende que eu só posso saber quando já é. É claro que eu antecipo possibilidades, mas se você escolhe uma delas eu perco a minha capacidade adaptativa, eu preciso agir de acordo com o que é necessário e com o que é possível na situação. Se eu não percebo o todo nós acabamos sendo surpreendidas e daí a gente briga com os outros ou fica correndo atrás deles.  

            Inimiga frustração eu vou ser sincera, eu faço um esforço grande pra não te odiar. Você costuma vir quando a certeza me puxa o tapete, mas eu estou aprendendo a te ignorar. Isso é um treinamento, pra estar disponível e poder me colocar em risco eu preciso de uma técnica específica. Assim como se treina uma técnica de tarefas deterministas podemos treinar técnicas de tarefas generativas, neste caso precisamos estar aptos a perceber o desenrolar da ação e preparados para agir dentro do contexto que se cria. E eu tenho muita informação pra perceber! Os braços dados, os contrapesos, os abraços, as forças, as velocidades, as sombras ,os vetores de movimento, os espelhamentos e mais tantas outras. Eu danço com mais cinco pessoas, eu não posso perder meu tempo contigo.

            Instabilidade, você é uma inimiga necessária. Você que molda o nosso modo de operar, a  instabilidade provoca interdependência entre todos que dançam. É você que coloca a gente em risco mas também pode gerar uma segurança, você nos coloca juntos sem criar homogenia.

            Eu treino a minha disponibilidade com meu inimigos, eu sei que nosso relacionamento pode mudar, por isso estou atenta. Esta talvez não seja uma carta de amor, mas é uma carta de comprometimento.

 

            Até breve,

            Jussara Belchior